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Fernandes Amanda

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Biboca Diagonal

Babuínos bobocas balbuciando em bando
10月5日

Limbo (décima quinta edição)

Tá, ninguém pode dizer que este está sendo o semestre mais feliz da minha vida. Hoje é dia de eleição pra prefeito, não estou nem me fodendo pra isso. Ao contrário do que seria esperado. Com pouco menos de dois anos longe de casa, perdi a confiança na eficácia desse tipo de disputa. O assunto, afinal, tá bem longe de ser a política. Estou me sentindo terrivelmente sozinha. Não é que eu esteja sozinha, fisicamente falando. Mas é que eu passei por uma breve sequência de desilusões. Estou com vontade de me mexer, mas não consigo. Me sinto fechada a chave. Queria ir pra casa, onde eu posso voltar a ter uma idade mental de menos de doze e ficar encolhida nos ombros da minha mãe. Esses dias eu senti, pela primeira vez na minha vida, vontade de desistir de tudo. Deu vontade de ir pra casa. Morar em Palmeiras pro resto da vida. Deu vontade de abandonar a faculdade, abandonar a pesquisa, abandonar tudo. Ficar parasitando meus pais pacientemente até o final das nossas vidas. Eu leio, pego no sono, revejo um filme, fico chorando. Às vezes por causa do meu ex que recentemente se revelou um monstro. Ontem foi por saudade da minha vó. Às vezes é pura solidão. Solidão de poder simplesmente falar, desenfreadamente... Ter alguém à minha disposição mesmo, é essa a palavra que eu quero. Alguém pra quem eu pudesse ligar e gritar "vem me acudir", ou só "vem ficar aqui comigo". Ontem eu vi um filme com a menina que mora comigo, deitei na cama e fiquei pensando. Quis ler, quis estudar, quis escrever. Não fiz nada. Só fiquei lá, tendo pesadelos até as duas da manhã. Esses pesadelos tem sido a maior parte da minha realidade, e eu não estou dizendo que isso seja saudável. Só não estou conseguindo fazer de outra maneira. Isso tudo devia ser um e-mail. Um pedido de ajuda pra alguma amiga. Mas todo mundo parece tão ocupado... E essas coisas passam... Não passam?
8月29日

Adolescência suicida

Acabei de tomar um susto daqueles.
Estou eu, afinal com tempo diante de um computador pra fuçar em orkut e ficar com os meus pais, quando resolvo voltar a um fórum muito querido pra mim, o Mugglenet Interactive. Ele abarca fãs de Harry Potter do mundo todo, e eu posto nele desde 2005, às vezes com maior regularidade, às vezes menor. Foi o primeiro fórum onde eu atingi mil postagens, pra depois mudarem o servidor... Isso não vem ao caso.
Fui visitar a página da minha Casa de Hogwarts, Corvinal, e fui ler a novas regras - porque sempre que eu volto de um grande sumiço, tem mil novas regras às quais eu devo me adaptar, porque o fórum cresce todos os dias - e me deparei com uma nova regra contra apologia ao suicídio e depressão. Primeiro achei que leria coisas como "get over it", etc, como um sermão dos moderadores pros usuários mais novos pararem com essa mania emo que todo mundo tem o direito divino de ter aos treze anos. Mas não, era coisa séria.
Existem tópicos de ajuda mútua dos usuários nesse site, eu descobri. Onde adolescentes do mundo todo fazem suas confissões para completos desconhecidos que apenas compartilham o conhecimento do mundo potteriano, alguns religiosíssimos, alguns se despedindo por estarem prestes a cometer suicídio - sim, encontrei uma postagem dessas, e nem foi difícil! - Fiquei tão chocada que não consegui pensar em nenhum outro lugar onde eu pudesse extravasar e pensar no assunto.
Será que isso é exclusividade dos adolescentes americanos, afinal são eles a maciça maioria dos usuários? O que afinal está acontecendo de tão errado na vida desse pessoal tão jovem pra pensar em suicídio?
Não sei o que pensar, honestamente. Claro que tem alguns depoimentos muito 13-year-old-like, de gente reclamando de amores não correspondidos, pais com quem não se relacionam bem, etc. Como eu ainda tenho um núcleo familiar, mesmo tendo já 19 anos, não sei se me sinto velha, ou diferente, ou qualquer coisa. Tem gente pensando em suicídio mesmo ali. Pensei por um instante, em como os adolescentes parecem ser mais solitários ainda do que eu achava que erra quando tinha 13 anos. Estamos ficando complicados cedo demais, né? Não digo que ninguém deve ser a sua fase Evanescence da vida. É natural, acho mesmo que faz parte do amadurecimento - ficar puto com o mundo, negá-lo e depois aceitar em termos e achar suas alternativas de vida - , mas de alguma maneira, as coisas parecem piores.
Não tenho a intenção de dar conselhos ou de propor uma solução para o problema; não estou aqui pra escrever redação de vestibular nem nada. Estou é impressionada. Assustada também, e me sentindo estupidamente distante dos problemas desses adolescentes, que lidam com famílias quebrantadas e que são obrigados a conviverem apenas consigo mesmos e com telas de computador durante tempo demais.
7月29日

Religião

Assunto espinhoso, eu sei.
Mas é que hoje eu vi uma coisa que me revoltou.
Não sei se vocês já tiveram a infelicidade de ver na tv a tal da "sensitiva" Márcia Fernandes. Estava eu na sala, hoje de manhã, fazendo um esforço pra ler, porque queria ficar junto com os meus pais mas não queria ouvir as barbaridades daquela mulher. Pois bem.
Ela já tinha falado um série de barbaridades. Já tinha falado quem estava em última encarnação, quem tinha problema x por encosto y, até que perguntaram pra ela sobre morte de crianças, abortos e etc. Ela falou que elas "simplesmente voltam pro universo" ( que já de cara me fez enxergar a Terra como algo MUITO fora do universo, claro...) e que seriam reencarnadas em coisa de dez dias (mais rápido do que você demora pra ir pra outro país de ônibus, mais certo que sedex 10). Contudo, o cúmulo vinha ainda depois: as almas eram remanejadas por computador! E era algo "muito bonitinho"!
Ah, não, aquilo foi demais. Minha mãe ficou revoltada porque eu e o meu pai disparadamos a rir. Nem sei do que eu ria: da falta de noção, do ar de "eu estive lá, só não mandei cartão postal porque o correio tinha fechado" ou dos apresentadores, que levavam tudo tão a sério.
Ela se diz espírita, não é? Pois é, tenho amigos espíritas e nunca vi nenhum deles ter tanta certeza do que acontece no além vida.
Particularmente, acho que ninguém tem condição de saber. Por isso, sou agnóstica... Acho muita prepotência das pessoas querer ter certeza de que existe uma vida além das maneiras z e a. Fico sinceramente revoltada. Quando vi aquele projeto de cartomante soltar uma pérola daquela, senti a minha inteligência ofendida, viu. De boa.  Ainda fomos forçados, eu e meu pai, a calar a boca. Bem típico da tv. Senta aí e escuta, pensa não senão perde a graça!
 
7月20日

Bom dia

E agora é só você que me faz cantar.

As palavras já não dão o apoio de antes... A verdade é uma só e é muitas, minhas mãos estão secas. Toda a minha infância, minha mão esquerda esperou uma chance pra brincar de escrever também. Era ela que me arrastava pra máquina de escrever, depois pro computador; tudo culpa da mão esquerda. Inveja. Coisa feia.

A minha avó materna morreu há pouco menos de uma semana. Queria ter estado aqui. Quero dizer, queria, mas não fazia questão. Hoje ouvi a coisa mais desagradável da minha vizinha possível: "chegou e não encontrou sua vó, né? Eu falo isso pro meu neto, vocês ficam viajando e um dia não encontram mais a gente vivo...".  Será que o meu sorriso amarelo deu uma idéia da grande chance que ela perdeu de calar a boca? Improvável.

Agora eu ando meio solta. Meio abandonada. Foda-se não ter sido a intenção, é como eu estou. Agora que voltei de novo... Senti que não tinha mais o amor que tinha antes. Daí o que eu faço com o meu?

Enfio no cú?

Ah, eu peço paciência. Sinto raiva como qualquer pessoa. E não estou lá muito afim de ouvir que é tudo normal. Que os finais fazem parte da vida da gente, que a nossa sociedade nunca esteve preparada pra a morte de pessoas que amam. Daí sempre vem alguém e me fala de uma cultura alternativa na puta-que-pariu e me diz que as pessoas vestem branco e festejam a morte de quem amam. Tá. E daí? Vou pro Japão e talvez lá me digam algo melhor, em japonês. E que eu não entenda uma palavra.

Tem uma coisa que eu gosto aqui: tenho a nítida sensação de invisibilidade. Ninguém mais tem muito tempo à toa na internet, pra ler blog alheio. Conferimos e-mails, respondemos recados, colocamos fotos novas no orkut. Daí pronto. Isso me encoraja a colaborar cinicamente com o individualismo da internet; escrevo sobre mim de forma que isso não importe a mais ninguém, a mais nenhuma ínfima pessoa no universo todinho, e leio sozinha. Às vezes visito a página, olho, acho legal e desconecto.

Às vezes eu choro, também. Já nem sei o motivo. Quem sabe seja por inércia, que nem eu falei mais cedo. Se eu ligar o foda-se, vai fazer diferença?
Improvável, não?
Se eu escrevesse isso num diário, ou num rolo de papel higiênico, eu ficaria igualmente satisfeita?
Não, claro que não. Não sejamos inocentes, porque eu não escrevo pra ninguém, nem mesmo no meu diário. Escrevo aqui por alguma esperança infantil. Li uma frase boa disso no meu Saramago: ter esperança de quê? Ter esperança já basta, ainda que pra nada. Ela pode existir sozinha, e só lá pra frente a gente vai saber porque ela continuou existindo.

E agora é só você que me faz cantar.
7月7日

Anestesia

Atingi um momento em que eu já não sei dizer o que eu sinto, porque não sei.
De verdade. Já cheguei naquele ponto em que se sofre por inércia.
Queria não ter que me mexer. Quero ficar parada.
Queria consolar as pessoas, mas não consigo. Sinto-me tão longe de tudo, e me sinto fraca.
Sinto que nem a literatura me esconde.

Quero voltar ao Ensino Fundamental e ler Harry Potter pela primeira vez.
Os motivos que me levaram já não são tão fortes pra me manter distante.
Já não tenho balanço próprio e parece que nada nunca se restabelece do jeito que eu preciso. Estou tão cansada de amadurecer.

Estou sentindo muita, mas muita falta mesmo, da minha parede de gelo - que chamaram de orgulho.

Pareço agora um animal fora da casca, que só espera o primeiro predador chegar, com medo e com certa resignação. Se pudesse, resistiria. Mas não quer/quero.
Fico envergonhada. Não tenho mais motivos pra ser fiel; serei então, fiel a mim mesma, ainda que esteja a menos que pela metade.
6月16日

Manifesto da Literatura Livre

Porque eu estou é de saco cheio de me dizerem do que eu tenho que gostar.
Porque eu tô afim é de mandar o Roland Barthes pra puta que o pariu!
Correndo o risco de parecer clichê e pedante, ó Saramago, me espresta aí tua palavra! O autor não só existe como está sentado bem na sua frente.
Ler não tem que ser um sofrimento. Um caso de morte. O que eu leio até hoje só me tornou melhor, jamais pior. Eu me recuso a perder a esperança nas letras só porque o curso de Letras me ensina assim.
Quero sossego na minha cabeça para me sentar em um auditório e abrir o meu volume das Crônicas de Nárnia. Ainda que ele nem seja meu favorito, ainda que seja quase que só por provocação.

9月5日

Muito tempo depois

Eu não tenho mais 17 anos.
Não tenho mais o cabelo comprido.
Lavo a minha roupa no tanque, todo domingo.
Faço meus almoços e jantares todo o final de semana.
A partir de segunda feira, trabalho como aspirante de bibliotecária.
 
Não consigo me manter em ordem. Minhas vitórias e minhas derrotas estão encavaladas demais, e eu não dou conta. Enlouqueço e me acalmo todos os dias. Choro e me descabelo, tenho ciúmes e tenho inveja, cometo todos os pecados nos quais Dante conseguiu pensar... Tenho stress porque apesar de tudo, continuo paulista, tenho orgulho porque me odeio. Mas ainda estou viva, sabe?
 
Isso tudo é pra confessar: não, eu não posto mais no space. Mas todo escritor tem uma veia saudosista, por mais que resista. Tenho um blog mais atualizado agora, eu diria.
 
 
Agradeço qualquer esforço de contato...